O que acontece quando não se faz a lição de casa?

January 29th, 2009 by Kebab Salonu

Este será um post diferente dos demais. Alguns podem já ter lido, mas no suplemento Paladar do Estadão de hoje, foi feita uma matéria sobre kebabs (com incríveis erros históricos) e, em seguida uma “comparação” entre as casas de kebab de SP, feita por blogueiros amadores de gastronomia (e clientes da nossa casa, segundo os próprios) do Que Bicho Me Mordeu?. No miolo da matéria, o critério era casas que venderiam as versões gourmet do kebab de cordeiro. Já na análise, aparentemente o critério era “o kebab mais próximo do original (sic)”, ou seja, mais próximo do estilo europeu.

Falamos isso não porque o texto nos foi negativo. O grande problema é que o texto contém graves erros factuais e avacalhou completamente com todo nosso trabalho de pesquisa gastronômica, cuidado com a comida e basicamente comparou laranjas e maças como se fossem a mesma coisa. E não falo somente pela nossa casa, mas por todos os citados. Somos fãs do Pitta i Kebab e concordamos com a análise elogiosa à casa. Mas é injusto e leviano comparar um doner kebab com um shish de cordeiro por textura e “rapidez”.

Tivemos a gentileza de enviar um comentário explicativo de nossa discordância da matéria para o blog que fez a análise. Quem quiser seguir a discussão, ela está aqui. Mas aqui colocamos os pontos principais de tudo que está errado na matéria:

1) A “análise” diz o seguinte: “Como o pãozinho é aberto e assado na hora, o kebab vai demorar. E não é feito no espeto, um pecado! São cubinhos chapeados, duros, sem sabor, difíceis de morder. Peça talheres.” Como dissemos, a carne poderia estar dura, porque usamos pernil puro – carne muito mais nobre – e nâo paleta e ombro, que num doner são raspados e, portanto, ficam mais “macios”. Também é completamente compreensível que as pessoas possam achar uma carne marinada por dias no iogurte da casa esteja “sem gosto” – especialmente se comeram 5 kebabs no mesmo dia, como alegam os blogueiros. A demora é pelo caráter artesanal do mesmo: somos um restaurante, não um fast-food. Mas até aqui, tudo bem: está na regra da crítica.

O problema é o resto: nosso shish kebab de cordeiro (que não é doner) é feito no espeto de bambu. Além disso, é o verdadeiro “kebab original”, até mais do que o doner, que é mais recente. Não é verdade que a carne é chapeada. É inaceitável que uma matéria no Estadão cometa essa irresponsabilidade. E nós sempre oferecemos talheres: quem conhece a casa sabe disso. E fizemos isso porque nossos clientes pediram. Portanto, aqui não fizeram a lição de casa número 1, coisa que sempre fazemos.

2) O teste que fizeram comparou laranjas e maçãs. Deveriam ter focado no doner kebab (que é o kebab de cordeiro – geralmente paleta e ombro – no espeto giratório vertical). Esse produto NÃO é feito no Kebab Salonu e nem na Kebaberia atualmente. E até onde sabemos, no Kebabel, leva carne bovina misturada [está assim descrito no site]. Ou seja, pegaram o cheeseburger do McDonald’s e resolveram comparar com o Bombom de Kobe Beef da Lanchonete da Cidade. E chamaram o último de herege…

3) A história do sr. Mahmut Aygün é absolutamente falsa. Estivemos em Istambul. Nosso chef Rodrigo Libbos é estudioso da culinária turca (e não da Europa) e a base da culinária turca não é o arroz e sim o pão. No Irã é que a base é o arroz. Portanto, o doner kebab é muito mais antigo do que isso na Turquia. Bastava uma busca na Internet e resolveriam a matéria inteira.

4) O tipo de kebab feito no Kebab Salonu NÂO é o kebab de rua e sim o kebab mais tradicional, feito nos restaurantes turcos e árabes. Por isso, eles demoram e geralmente são degustados no prato. Essa informação CONSTA no cardápio exatamente para não dar o tipo de informação errada (“quanto mais rápido sai, mais saboroso“). Em tempo: avisem o Rei da Costela dessa novidade e peçam para ele tirar a carne mais rapidamente.

5) Os únicos sanduíches que são chapeado na casa são o Bastrma e o Lahmajin. As demais carnes são todas grelhadas.

6) Finalmente, a matéria confunde o que é kebab, o que é “original” e o que é casa de kebab. Na matéria, a avaliação era sobre os kebabs gourmet. Na análise, claramente o parâmetro era o doner kebab de rua europeu. Mas na resposta do blog, já não era mais isso, eram “as casas de São Paulo que têm como prato-símbolo o kebab no pão, independentemente da ascendência da casa“. Se isso foi verdade, então porque criticaram todas as casas que não eram “originais” e que não faziam “no espeto” giratório?

Fechamos isso com um pedido para que, da próxima vez, o jornal se preocupe em fazer a lição de casa e não repassar a blogueiros amadores a tarefa de fazer um trabalho jornalístico. Blogs não tem necessariamente compromisso com fatos, com a verdade jornalística ou com pesquisa – são objetos pessoais. De novo, estamos ok com isso. Mas jornais deveriam ter essa responsabilidade. E, como disse bem a nossa amiga Paula Rizzo, não importa quantas pessoas não entendam o que fazemos. O que importa são quantas pessoas entendem. E é para elas que fazemos o melhor kebab de São Paulo, de acordo com a (certamente mais séria) Veja SP.

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About Kebab Salonu

O restaurante e café turco Kebab Salonu é o primeiro restaurante de releituras das culinárias do Oriente Próximo, Norte da África e península indiana de São Paulo. O principal fio que liga todas essas cozinhas é o kebab, que assume vários nomes, mas sempre como sinônimo de uma alimentação saborosa, saudável e criativa. Nosso objetivo é um só: ser a referência neste tipo de culinária na cidade, sempre com novidades e surpresas, mantendo-se fiel ao conceito da casa. Esse blog é nosso canal instantâneo de comunicação com nossos fãs.